Conheça mais sobre o cenário brasileiro de crédito com Dan Cohen, da Finpass

Conheça mais sobre o cenário brasileiro de crédito com Dan Cohen, da Finpass

Ainda com a tradicional centralização bancária, o mercado do Brasil está se abrindo nos últimos anos para novas modalidades de crédito. Para otimizar esse processo, Dan Cohen fundou a F(d)x, que agora é a Finpass. Confira a entrevista com o founder e CEO da Finpass.

Pessoal e empresa

Gostaria que me contasse um pouco sobre sua carreira e sua trajetória até chegar na Finpass

Eu transitei bastante no mercado financeiro. Eu comecei minha vida profissional em uma gestora chamada Hedging Griffo, na qual eu acabei ficando sócio e hoje ela foi comprada pela Credit Suisse – que é uma empresa bem conhecida nessa área de asset management, na gestão de recursos. Depois da Hedging Griffo, eu fui fazer um MBA em Chicago, e trabalhei com investimento durante um bom tempo, incluindo crédito. Quando eu voltei para o Brasil, eu acabei trabalhando em um banco comercial, na área de investimentos também, mas sempre focado em crédito. Então eram basicamente os fundos que emprestavam dinheiro para empresas.

Dessa época, quando eu estava trabalhando no banco, eu comecei a observar que tinha muita ineficiência em dois lados: do lado das empresas, que tinham desconhecimento do mercado financeiro e não tinham acesso a muitas instituições financeiras para tomar crédito, e por isso acabavam tomando crédito mais caro, com conselhos mais desfavoráveis. E do lado do banco também existia uma ineficiência, que a gente via muitas vezes o sócio do banco projetando na empresa que meio que sabia que não sairia negócio, então não tinha o DNA do banco, muito diferente do que o banco queria.

Observando essas duas ineficiências eu tive a ideia de montar e começamos a montar o algoritmo de matching, que antes era conhecido como Tinder do crédito, em que o banco sabia no software todas as características da empresa das quais ele queria emprestar e das garantias que ele precisava. E dessa combinação, da empresa com a garantia, empresto esse tipo de crédito. E começamos a criar vários perfis de crédito dentro da plataforma. A empresa chegava na plataforma, o próprio algoritmo já fazia o matching. E esse matching dava a possibilidade da empresa encontrar o banco certo.

Já no começo tinham 20 bancos, então eram muito mais bancos do que as empresas tinham acesso disponível. E para o banco gerava uma afetividade gigantesca então ele, que só ia conversar com a empresa, sendo só apresentado para a empresa, ele deu o matching, a chance de você acertar a originação é muito alta. Então essa foi a primeira versão da plataforma, e depois a gente evoluiu: hoje é uma plataforma com mais ou menos 13 ferramentas.

A primeira ferramenta é o matching, que é o conjunto de ferramentas que é geração de informação e engajamento da empresa que teve o matching. E a outra ferramenta, que é tão importante quanto, que é o pregão, onde as empresas competem para ter exclusividade e negociação com as empresas. E nessa competição, elas oferecem taxas melhores, prazos maiores para as empresas que estão tomando o crédito. E isso é um benefício para as empresas terem acesso a um crédito melhor.

A plataforma evoluiu desde a primeira versão e hoje ela se propõe uma solução completa para as empresas. É uma solução que conecta as empresas a mais de 200 financiadores. Hoje a gente tem financiadores da plataforma e usando essa tecnologia a gente dá acesso para essas empresas (pequenas e médias, especialmente), a melhores créditos e condições de financiamento e empréstimo. E para vários tipos de níveis: tem o crédito com garantia, o home equity, desconto de duplicata, então a gente tem hoje várias identidades de crédito e vários financiadores, que a gente consegue gerar para as empresas as melhores opções de crédito.

Empresários e cenário de aberturas de empresas

Qual é o maior desafio enfrentado pelos empresários hoje?

Eu vejo que o Brasil ainda não tem muitas alternativas de crédito. Se comparado com os Estados Unidos, as quantidades e os tipos de crédito que existem lá são maiores. E quanto mais tipos de crédito, mais soluções existem para as empresas. No Brasil, o mercado de crédito não é tão descentralizado. Agora, o maior desafio enfrentado pelos empresários hoje, que é por isso que eles usam a nossa plataforma, é realmente ter acesso a vários financiadores de uma vez só. Pensando no empresário que está fora de São Paulo: o processo dele, em geral, é a agência do banco, e para ele também não compensa vir para São Paulo tentar visitar todos os bancos e ele não ter esse acesso e nem com quem falar.

O maior desafio do empresário brasileiro hoje é acesso a financiadores que queiram financiá-lo. O segundo maior desafio é achar e saber quem é esse financiador. Tem banco que vai trabalhar com um tipo de garantia, um pode trabalhar com outro. Conhecimento e acesso são os maiores desafios do empresário brasileiro hoje. Saber quem pode emprestar para ele, saber quais são as opções que ele tem, porque só sabendo das opções que ele consegue realmente acessar o melhor crédito possível.

Quais são os pontos de atenção que os empresários devem ter na hora de abrir e administrar uma empresa?

O ponto mais importante para pequenas empresas é não misturar o dinheiro da pessoa física com o dinheiro da empresa, isso especialmente para empresas pequenas. Em geral, nas empresas, a gente vê que muitas empresas não tem a contabilidade organizada, tem muito empresário que tem um imóvel só que esse imóvel não está regularizado. São questões básicas que o empresário poderia fazer: manter os números da empresa em dia; tentar manter um bom relacionamento com os bancos, não só na hora que ele precisa de dinheiro; deixar as garantias que ele tem em dia, então deixar toda a documentação de garantia em dia para que no dia que ele precise de um crédito, ele já tem aquela garantia ok para tomar aquele empréstimo.

Mercado de crédito

O Brasil é um país de muita concentração bancária. Quanto isso é prejudicial para o desenvolvimento das empresas?

Como eu falei, é muito prejudicial. É exatamente por existir essa concentração bancária que existe a Finpass. A gente não tem hoje os cinco grandes bancos na plataforma, porque no final das contas a maioria dos empresários já tem acesso a esses bancos e agências, e muitas vezes eles ficaram insatisfeitos com esses bancos. Então não se tem condições favoráveis de taxas, o limite já é todo tomado então o banco não empresta mais dinheiro, o banco não tenta entender quais são as necessidades reais de prazo que ele tem.

O papel da Fdex é trazer a maior quantidade de financiadores diferentes, com diferentes perfis, para que a gente possa oferecer soluções melhores. Então se de repente o financiador não precisa de uma garantia, a empresa vai poder usar a garantia para uma operação mais longa. Essa concentração deveria gerar um mercado de crédito paralelo, e não bancário, mas de fundos e fintechs, que a gente acha que vai te devolver a longo prazo

As soluções comuns oferecidas pelos bancos tradicionais não conseguem suprir as necessidades dos empresários? O que acontece?

Os bancos têm mais ticket de produtos bancários. De qualquer maneira, o gerente de agência de uma cidade de interior, o nível de sofisticação dele para oferecer o produto que é um pouco mais específico para a empresa, muitas vezes não entende e por isso não existe essa sofisticação. Entendo que poucos bancos têm poucos produtos bancários.

E o interessante é que todos esses grandes bancos pensam de uma maneira muito parecida, então se o banco A não libera crédito para uma empresa, muito provavelmente, o banco B também não vai emprestar. Então as empresas caem em uma armadilha de que no final das contas, elas nem conseguem crédito. E é aí que a gente entra, ajudando essas empresas a encontrar outras alternativas de crédito que elas não têm no mercado bancário, nos grandes bancos.

O que o brasileiro precisa considerar antes de solicitar uma modalidade de crédito?

A primeira coisa que as pessoas precisam tomar cuidado é, e o brasileiro faz muito isso, ele pega crédito para investir na empresa, comprar uma máquina, que são coisas que dão retorno a longo prazo, e o crédito que ele pega para isso é uma linha de curto prazo. Ele usa uma linha de capital de giro para investimento. E isso dá errado, porque a linha de capital de giro ela é para capital de giro, e não para investimento.

A primeira coisa que ele tem que tomar cuidado é entender qual o fluxo de receita que aquele crédito que ele pegou vai ajudar a gerar, versus o crédito que ele pode pagar. Se eu pego crédito para capital de giro, é para capital de giro: vou comprar estoque, vou vender esse estoque e ele vai voltar rápido. Eu não posso usar o dinheiro de uma linha de capital de giro, que é de 12 meses, e fazer investimento que vai dar retorno em 36 meses, porque aí com certeza vai dar problema. Essa é a primeira coisa que o empresário tem que observar.
Depois disso, ele tem que olhar prazos e taxas. É melhor um crédito mais longo com juros um pouquinho menor, porque no final das contas, não são só os juros que contam, e sim o quanto se paga mensalmente, com a amortização, que é o serviço da dívida. Entre pegar um crédito que vai custar mais caro ao ano, e uma dívida que você vai pagar 36 meses ao invés de 12, o dinheiro que você vai pagar mensalmente é menor.

Por isso é importante olhar essa conjunção, não só de taxa, mas também as condições de prazo. E também as garantias que ele está utilizando: você tem que tentar pegar as suas melhores garantias, que geralmente são imóveis recebíveis e com elas tentar o melhor crédito possível, porque elas vão ficar “travadas” para aquele crédito. Usar uma boa garantia para contratar um crédito ruim, um crédito caro em um prazo curto, não compensa. Esses são alguns dos cuidados que o empresário ter que observar na hora de tomar o crédito.

Existe o cross selling também: muitos bancos que oferecem crédito mas querem que o empresário compre o seguro, desconto em duplicata, então o empresário também tem que tomar cuidado com esse cross selling que nem sempre vai ser benéfico para ele.

E a utilização do imóvel como garantia do empréstimo? Elenque os benefícios da modalidade para as pessoas.

Geralmente quando se coloca o imóvel como garantia, você consegue um prazo mais longo, com prazo de 24 meses até períodos maiores – falando do home equity, o prazo é em média de 10 anos. Muitas vezes, você não queria aquele crédito, a gente tem várias empresas na plataforma que aceitam crédito com garantia, mas se não tem essa garantia você não tem acesso a esse crédito. De maneira geral, ele tem um prazo muito mais longo e uma taxa melhor, mais convidativa que o crédito com garantia.

Fintechs e crédito digital

Qual é o papel das financeiras e fintechs nesse cenário brasileiro hoje?

As fintechs têm a missão de tornar o processo de tomada de crédito muito mais rápido e muito mais assertivo, utilizando a inteligência para saber qual crédito a empresa teria esse acesso. A nossa missão como fintech é democratizar o crédito, dando acesso a todas as empresas e ao mesmo tempo incluir todos os doadores, instituições financeiras, bancos médios, outras fintechs, fundos. A função maior das fintechs é democratizar o crédito, e facilitar, tornar mais rápido, tornar mais assertivo e dar mais acesso.

Com o tempo, eu vejo que o papel das fintechs também vai ser criar linhas específicas para cada tipo de busca. As fintechs são experts em originação e em acessar o empresário. Então acho que com o tempo, as fintechs vão criar novas soluções de crédito para indústrias específicas, e vão se tornar cada vez mais específicas.

O que mudou com a digitalização dos empréstimos?

A velocidade, com certeza a velocidade é outra. Com a digitalização do crédito, tem coisas que ainda não foram digitalizadas, então toda a parte de garantia, formalização, e tudo o que envolve cartório não foi digitalizado. Na Finpass a gente propõe digitalizar a esteira do crédito até onde é possível. Toda a parte de análise, seleção, originação, busca de recomendações, já pode ser feito na plataforma. Esse processo que demorava meses demora agora segundos. Agora, na hora de formalizar o crédito, que se faz no cartório, a gente ainda não conseguiu resolver porque ainda não foi criado um cartório digital. O que a gente fala hoje é que o processo que demorava cerca de 90 dias, a gente consegue reduzir para duas semanas. Então na Finpass, o empresário consegue ter o dinheiro na conta em até uma semana.

Gostaria de chamar a atenção para mais algum ponto em relação ao status do cenário econômico brasileiro para os empresários?

A gente percebe que melhorou muito a situação do crédito de dois anos para cá. Em 2016, foi um desastre: não tinha crédito, dependendo da empresa era bem. Mas a gente acredita que o mercado realmente vai estar em uma situação boa a partir do momento que você tiver uma nova situação em que as fintechs estejam entrando no mercado.

Hoje a gente tem a certeza de que as fintechs vão ter um papel fundamental em democratizar o crédito no Brasil, dando mais crédito para as empresas e um crédito melhor. Porque a gente vê que muitos bancos ainda não mudaram a mentalidade então eles vão precisar ser provocados para mudar essa mentalidade: se não existir essa provocação, nada muda. O cenário melhorou, mas a grande melhora virá com a participação cada vez maior das fintechs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.